Páginas

domingo, 29 de abril de 2012

Silêncio



Há um pedaço do mundo que não irei mais olhar
Há um pedaço do mundo que não poderei um dia olhar
Há uma resposta que não darei
Há um tempo que não esperei

E o tempo calou feridas...

Há algum tempo que não ouço para traz 




Por Débora Thamine

domingo, 11 de dezembro de 2011

A Ficção do Chuveiro


Ela é que está com os olhos flamejados. Cansados. Há a vontade imensa de tomar um banho, um banho que lhe molhe desde a cabeça, para cada lágrima que cair, se juntar ao jato do chuveiro, se misturar, deixar de existir, na ficção. E o gemido do choro também se misturar com o som da água caindo. Desperdício de água, para fingir sanar.  Lava apenas o corpo e a cabeça dói, porque chorar também dói por fora.

Por Débora Thamine

domingo, 4 de setembro de 2011

Devaneios no Lugar de Estar


Porque você não consegue responder? Não percebe que o pão vai acabando a cada mordida? Que a vida já por muito tempo anda doída? E a doida sou eu. Dói demais tudo, dói sem mais dizer. E o silêncio permaneceu e o cara que sem dizer nada do nada tudo tumultuou. Levantou-se de maneira abstrata pegando seu cigarro que estava no bolso desejou fumar, mas conteve a idéia quando lembrou que estava tomando antibióticos. Dói também a garganta, me dói a dó que sei que sente, dói também falar. Eu te perguntei que lugar é este. Foi. E eu digo que se encontra além da fatia do queijo que não se desejará sumir porque lá fora tá frio, e vai desejar definitivamente um cobertor que cubra suas feridas que cubra suas ações. O lugar parecia se distanciar, e a menina da cozinha só mexendo o brigadeiro. A cada mexida o lugar ficava mais longe e de tão longe o lugar deixou de existir e a menina da cozinha mexia o vazio. E a mulher da sala abria a porta, sentava na poltrona de domingo, percebe o vazio, a falta de lugar, a falta de ninguém neste lugar. Cadê? Na estação, seu marido sem entender porque a sua esposa não havia voltado com ele, vê o próximo trem, da bola no cume à base verde. Verdade, veda para mim tuas verdades. A mulher entra no banheiro sem espelho sem descarga a catar catarse. Chega à sala, senta. O cara não fala nada. Devaneios no lugar de estar.


Por Débora Thamine

domingo, 31 de julho de 2011

A Mulher Já Bacana


No meio da chuva, no meio da rua, a sua vontade era estar meio nua, no meio da cama. No meio da cama que não era bacana nem de Amsterdã. Estava meio surrada, estava meio côncava... Continuou a mulher da calma que não tinha com o seu trajeto habitual de um dia de sábado. Atravessou a rua comprou umas laranjas, e tudo mais de coisa verde e umas frutas também habituais. Meio louca atravessou a rua, por um triz é atropelada, por dois dedos machucada e desse modo maltratada pelo motorista. E meio artista abre a porta de casa com uma sacola marrom. Procura o homem da cama. Ele não está. “Ele quer me ver chorar, mas chorar de manhã é tão pouco, e eu quero mais”. Despejou suas compras em cima da mesa, despejou o que estava por cima do intestino e todas aquelas coisas mal digeridas. Pensou por um momento que poderia estar grávida, descartou imediatamente a possibilidade. Sentou no sofá esperando o homem da cama, o homem da hora do café. E continuou a esperar. O sol já tinha ficado quente demais, agora nem muito sentia de quentura nem de fora nem de dentro. Batem na porta e ela se empolga, mas era apenas um coletor de dados. E ela coleta todas as bagunças do sofá para o rapaz entrar, sem vontade de olhar para a cara do homem, só percebe depois de um minuto que ele é o homem da cama e se jogam os dois na maciez dos lençóis, lembrando apenas que amanhã tomariam mais um café.


Por Débora Thamine

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Hora do Recreio

E quando eu levantava, fazia tudo costumeiro. Penteado nas mãos da mãe, o cabelo, que era um puxa puxa, ataque dorido aos cabelos pueris com franja rasa. “mamãe puxa demais meus cabelos, estica até o rosto, mas meu cabelo só fica bom, quando é a mãe quem penteia”. Eu calçava as meias muitas vezes até encontrar uma forma que não me incomodasse o dedo mindinho, nunca estava bom. Não gostava muito de ir à escola, mas tinha que ir, a tarefa tinha que mostrar a tia, e geralmente sempre ganhava chicletes do rapaz da venda. Meu único amigo da escola, sempre sorria pra mim quando eu chegava, só ele gostava de mim além da professora jovenzinha. Ele sorria, mas nunca ficávamos juntos, meninas brincam com meninas e meninos com meninos. A caminho da sala de aula, ainda vazia, pois sempre era uma das primeiras a chegar a escolher lugar no meio da sala, ficava olhando o mini jardim que tinha lá dentro, me tirava atenção por hora em hora entre uma aula e outra. E no relógio, já era hora. Me causava horror a hora do recreio, eu sempre terminava tarde as atividades, caprichava demais a letra, como forma de ficar mais tempo na sala,pois ninguém me esperava.Quando já não havia o que enrolar, a professora insistia para eu sair, eu ia andando com passos menores que a minha perna, bem devagarzinho prestando atenção em tudo o que eu via no caminho, no novo painel, nos jardins do pátio, até nos azulejos das paredes. Não tinha ninguém para brincar, ninguém me chamava pra brincar e eu ficava perdida sem saber pra onde ir em que lugar ficar e o que fazer durante todo esse tempo, esses 20 minutos de intervalo me matavam. Seguro a mão da mãe e volto pra casa. O tempo passa e é hora de ir pra escola mais uma vez, o estica estica dos meus cabelos mais uma vez, tudo de novo... Colei figurinha no caderno, do chiclete que tinha ganhado hoje, cola ruim que nem gruda direito, cai no chão toda hora e a mão pequena a colocá-la sempre no lugar. Olhei para o meu jardim, sentei na minha cadeirinha costumeira e menina que sentada no meu lado diz que a figura no meu caderno é dela e toma para si, eu protesto e tomo para mim, protesto para professora, “a figurinha é minha fui eu que ganhei do moço legal.” Hora do recreio mais uma vez, lanche da lancheira mais uma vez, aproveitamento corriqueiro do meu lanche e convite para ir brincar com as meninas. Felicidade sem tamanho, meus pés queriam sair do chão de sentimento bom que eu senti, e conversava bastante, fiz vários bolinhos de areia e queria fazer muitos outros, havia muito apetite, escutei alguma menina dizer: “tá na hora”. “tá na hora”. E o brinquedo de roda que tinha no parquinho, todas resolveram ir, e rodamos, rodamos, rodamos, e o sorriso frouxo no rosto e os cabelos penteado por mamãe já desgrenhados... Gritam em coro: “estamos fingindo ser suas amigas, mais gritos, comemorações, risadas. A roda parou e me vi caída no chão de areia, não me lembro como fui parar lá, deve ter sido o momento que tentei voar, pensei que podia voar e não consegui, virei e os meninos brincavam de alguma coisa qualquer, meu amigo olhou triste pra mim, a professora viu e não fez nada só disse: recreio acabou.

Por Débora Thamine

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O Passeio





Deitada na cama, tudo era espera de um pedido de desculpas. Os lençóis desordenados faziam lembrar o último movimento culposo. Cansada da espera, levantou-se e em frente ao espelho viu a melhor imagem refletida. Sentia-se nua por falta de seus brincos retangulares, pegou a sua bolsa em busca dos instrumentos cotidianos. Abriu a porta do guarda-roupa e sem pensar muito escolheu. Estava satisfeita apesar do ócio da espera. Por trás daquela bata verde existia a lembrança de um presente que não era seu. Presente fora do ato palpável. A lembrança inspirava o passado e sua vó morava longe ou na casa onde queria. Subiu então em qualquer ônibus numa vontade repentina de seguir sem rumo, a ansiedade consumia. Não havia lugar para sentar e do ócio se fez satisfação, da satisfação se fez atopía e da atopía veio o estar triste. Em pé segurando entre uma haste e outra seguiu viagem. Lágrimas desobedientes batiam ao pé da passageira sentada que nesse desconforto fingia não sentir nada. No meio das sensações um telefonema: preciso conversar.


Por Débora Thamine

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Sol Fraco


Perguntei se haveria alguma oportunidade de reviver aquele momento, ele disse que não. Foi tenso na sua resposta, não me atrevi a perguntar o porquê, fiquei calado escutando tudo, esse tudo que se tornou nada perante aos meus ouvidos. Tomei aquele discurso como um beijo de escárnio. Não haveria lugar para mim jamais. Um gole de café queimando a minha língua ajudou a calar a minha voz que de certa havia nada e esse calar não acalmava. Entrei no carro e a rua tentei gravar na cabeça, não entendi bem o que eu fiz, mas entendia bem o que se passava, e tudo agora passava só não a dor e a culpa.

Débora Thamine